CUIDAR DOS QUE CUIDAM DA POPULAÇÃO

Os trabalhadores da saúde que estão enfrentando diretamente a Covid-19 nas unidades de saúde por todo o Brasil merecem muito mais do que palmas nas janelas e homenagens nas redes sociais. Serem chamados e reconhecidos como heróis , para quem está na linha de frente desse combate, alivia muito pouco do seu sofrimento diário.

Trabalhador da saúde protesta em Belém do Pará. Foto: Twitter/João Paulo Guimarães

São milhões de trabalhadores se dedicando para salvar vidas, porém atuando em péssimas condições de trabalho e com um aumento enorme do ritmo e da intensidade da carga de trabalho, sobretudo nas Unidades de Tratamento Intensivos (UTIs) e emergências. Assim, para exercer da melhor maneira seu trabalho, precisam não só de equipamentos de proteção individual (EPIs) conforme é difundido pelos meios de comunicação.

Além da falta dos equipamentos de proteção individual, tais como máscaras, óculos de proteção, protetores faciais, aventais e luvas de procedimento, se soma a péssima qualidade daqueles distribuídos nos serviços, bem como um constante racionamento, que impõe que a algumas categorias profissionais os EPIs sejam fornecidos, enquanto outros trabalhadores não têm acesso e ficam expostos, principalmente os profissionais de limpeza, segurança, alimentação, técnicos administrativos entre outros.

Em muitos estabelecimentos não estão disponíveis os produtos para higienização básica, como sabonete líquido ou álcool a 70%.

Capotes usados deixados junto com comida, em um Centro de Emergência Regional, no Rio de Janeiro. Fonte: redes sociais

Muitos trabalhadores trabalham em mais de um emprego, fazendo uma carga horária de trabalho bem acima do que é saudável para qualquer pessoa. Vários trabalhadores da saúde acumulam cerca de 70 a 80 horas de jornada de trabalho semanais, sem considerar os trajetos entre domicílio-trabalho-domicílio.

Em tantos casos os processos de trabalho e os protocolos sanitários e assistenciais são caóticos, e vem piorando conforme aumenta a sobrecarga de trabalho.

Ato no Hospital Federal de Bonsucesso (RJ), durante a visita do Ministro Teich em 9 de maio. Foto: redes sociais

As relações de trabalho são afetadas com o nível de tensão, o que faz explodir os casos de assédio moral nos ambientes de trabalho.

Os trabalhadores da saúde que também são pertencentes aos grupos de risco para a Covid-19 têm sido obrigados em muitos casos a continuar trabalhando. Gestores vêm questionando possíveis afastamentos devido à falta real de trabalhadores para o enfrentamento do corobnavírus, seja pelo volume aumentado de atendimentos no período, mas também pela redução da força de trabalho durante anos em função de ausência ou insuficiência de concursos públicos. Ou seja, os trabalhadores são obrigados a se arriscarem de forma exacerbada a adoecer, o que para eles pode ser mais fatal do que a doença já é, para tantos.

Homenagem aos 06 profissionais do Hospital Federal de Bonsucesso (RJ) mortos pela Covid-19.
05 de maio. Fonte: Redes sociais

Para dar conta do aumento de casos de Covid-19, os governos têm contratado novos trabalhadores. Porém, muitos estão indo para a linha de frente sem as condições técnicas devidas, seja por serem contratados sem terem qualificação específica para o tipo de cuidado necessário nesse duro momento, ou pelos gestores não organizarem tempo e condições para os devidos treinamentos.

E muitos contratos de trabalho são mínimos em valores e direitos trabalhistas. A precarização das relações contratuais de trabalho, que já era uma dura e crônica realidade para os trabalhadores da saúde, no cenário da pandemia foi elevado a novo patamar, com contratos, entre exemplos, de 06 meses, com risco alto de adoecimento desde o seu primeiro dia no serviço. Nas condições emergenciais da pandemia, nenhum contrato deveria ter menos de 01 ano de vigência, com estabilidade e garantias trabalhistas equivalentes à exposição e risco biológico máximo.

O governo federal agrava esse quadro, ao cometer a MP 927, que amplia a carga de trabalho para os trabalhadores de saúde, em especial aqueles que atuam nas UTIs, e desconsiderando o coronavírus como doença ocupacional. [1]

PSOL defende limites máximos de jornada e mínimos de intervalo para profissionais de saúde na pandemia. Leia mais

O resultado desse cenário tem sido o adoecimento físico e mental dos trabalhadores da saúde, incluindo o crescimento diário de profissionais infectados e mortos devido à Covid-19. Além disso, a conjugação da intensificação do trabalho, do aumento do ritmo de trabalho, da falta de protocolos e da falta de segurança biológica vêm convertendo inúmeros trabalhadores em vetores de disseminação do vírus, levando perigo para si e para seus familiares, além de, contraditoriamente, levar perigo para seu próprio trabalho e aos pacientes.

Cada trabalhador esgotado e cada afastamento é um trabalhador a menos na linha de frente dos cuidados em saúde para a população. O tão falado colapso do sistema de saúde não se manifesta somente pela falta de leitos, respiradores, máscaras e testes. É também extremamente cruel o colapso da força de trabalho, que vem colocando suas vidas em risco para impedir que outras vidas sejam ceifadas ou afetadas gravemente pelo coronavírus e seus efeitos.

Enfermagem em luto pelos trabalhadores vítimas da Covid-19, fazem ato em Brasília no dia 1º de maio em defesa do SUS e pela necessidade de reforçar o isolamento social. Na ocasião foram agredidos por apoiadores hidrófobos de Bolsonaro. Foto:

Sim, os trabalhadores da saúde tem sido amplamente reconhecidos como fundamentais. Mas como poderão enfrentar esse desafio em prol da população se durante tantos anos tiraram todos os recursos que poderiam ter fortalecido o sistema de saúde para enfrentamento desse e tantos outros problemas sanitários que acometem nosso povo? Sim, eles estão ali por você, por todos. Sempre estiveram, mesmo quando eram até chamados de parasitas, vagabundos ou marajás. E sempre lutando muito por um sistema de saúde que fosse universal, estatal, público e gratuito, e que pudesse garantir a vida e o bem viver de toda a população.

Nós estamos aqui por você, fique em casa por nós“: campanha se espalhou em unidades de saúde por todo o Brasil e pelas redes sociais. No mosaico vemos trabalhadores da UPA Oceania, João Pessoa/PB; Samu de Coração de Maria/BA; Hospital Geral de Cuiabá/MT; Hospital São Sebastião, Raul Soares/MG; Hospital Rio Doce, Linhares/ES

Precisamos, todos, cuidar daqueles que cuidam da população. Como? Defendendo e lutando com eles e por eles, para garantir o afastamento daqueles que fazem parte do grupo de risco; para assegurar que tenham melhores condições de trabalho, organização e processos de trabalho para que não adoeçam, física e mentalmente; para que todos os trabalhadores dos serviços de saúde, médico, servente, segurança, enfermagem, fisioterapeuta e tantos e tantos, tenham proteção individual e coletiva em quantidade e qualidade adequadas para fazerem o bom combate. E, para durante e além da pandemia, a forma mais direta de prestar respeito aos trabalhadores da saúde é somar ao pleito que nunca foi tratado de forma séria por qualquer governo: implementar a carreira do SUS para todos os trabalhadores e de todas as esferas, com estabilidade, salário digno e formalização contratual pública e direta com o estado, com concursos públicos constantes e adequados às necessidades sanitárias das populações, para que se faça nesse país um SUS para se orgulhar para bem além do período trágico que a Covid-19 tem nos legado. O SUS não pode ser como a Geni, da música de Chico Buarque, que durante a pandemia “pode nos salvar e vai nos redimir”, e depois, como antes, “é feito pra apanhar, é bom de cuspir”.

O SUS é nosso!!

E é pelo fato da luta pelo SUS e pelo direito à saúde ter sido tantas vezes derrotada, que os trabalhadores da saúde neste momento não precisam somente de palmas e reconhecimento: a luta dos trabalhadores da saúde é a luta de todos os trabalhadores. E a luta de todos os trabalhadores precisa ser a luta para que a vida esteja sempre no centro das preocupações, sejam as imediatas e também para o cenário pós-pandemia.

E não se esqueça: o distanciamento social é a única política hoje capaz de reduzir o número de casos de Covid-19, o que também se constitui uma forma de proteger os trabalhadores da saúde.

Fique em casa!

Use máscaras!

#VivaOsTrabalhadoresDoSus

#LutePeloSus


[1] No dia 29/04, o plenário do STF suspendeu o artigo 29 da MP, que estabelece que o coronavírus não é doença ocupacional. Com isso, aos profissionais da área da saúde contaminados pelo coronavírus será assegurado o direito para afastamento com o auxílio doença acidentário ou outros decorrentes do agravamento desta doença. A crueldade de Bolsonaro foi mitigada nesse caso

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