MINISTÉRIO DA SAÚDE NÃO ADVERTE, MAS USO DE CLOROQUINA NO TRATAMENTO DE COVID-19 FAZ MAL À SAÚDE

Desde o início da pandemia da Covid-19, pesquisas estão sendo realizadas em todo o mundo para se desenvolver uma vacina e recursos terapêuticos específicos para a doença, que já ceifou a vida de 340 mil pessoas ao redor do planeta. Nesse sentido, diversos tratamentos têm sido testados, e um destes foi a cloroquina, que ficou famosa, não pela sua eficácia, mas pelas pressões políticas dos Estados Unidos e do Brasil para sua utilização em massa.

Ressalta-se que Trump e Bolsonaro se manifestaram contrários às medidas de isolamento social, entrando em conflito com a maioria dos governadores nos Estados dos dois países. No Brasil, o Ministério da Saúde (MS) estava sendo pressionado por Bolsonaro para a criação de um protocolo de amplo uso da cloroquina, contrariando as orientações de organismos internacionais e nacionais de saúde, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e de muitos especialistas e instituições de pesquisa, pois estes recomendam a utilização deste medicamento exclusivamente em testes clínicos e em condições estritamente controladas.

As pressões contrárias às medidas de isolamento e a insistência na utilização de cloroquina para o tratamento foram responsáveis pela saída de dois ministros da saúde (Henrique Mandetta e Nelson Teich) no Brasil. Após a saída de Teich, o presidente designou o general Eduardo Pazuello, com experiência em logística e não em saúde, para ser o ministro interino, o qual nomeou nove militares para cargos estratégicos na estrutura do ministério, nenhum deles com formação ou experiência na área da saúde, deixando assim o MS acéfalo durante a maior epidemia do último século.

A investida de Bolsonaro para a liberação de cloroquina obteve efeitos concretos de desabastecimento deste medicamento nas farmácias, deixando pacientes, que a utilizam de forma contínua para outras doenças e agravos, sem acesso a esse fármaco. Outra consequência disto foi a liberação por algumas secretarias de saúde no interior do Pará e de São Paulo, bem como de uma operadora de planos de saúde, de um chamado “kit Covid”, contendo a cloroquina e outros medicamentos igualmente sem comprovação de eficácia para utilização de forma ambulatorial, sem controle ou acompanhamento. Dando sequência na política de distribuição em massa de cloroquina, na semana em que o Brasil atinge e supera a terrível marca de mil óbitos por dia, e pouco tempo após a saída do ex-ministro Teich, um protocolo do MS é aprovado para ampla utilização de cloroquina, incluindo tratamento precoce em ambiente não controlado ou hospitalar.

Em contraponto a estas medidas, vimos divulgada uma nota construída por diversos especialistas renomados da área da saúde, onde estes revisaram vários estudos acerca do tratamento com cloroquina para Covid-19. Nesta nota destacam-se dois estudos, no qual um destes aponta que a cloroquina não apresentava bons resultados contra Covid-19 em animais, apesar de ter atividade in vitro contra o SARS-CoV-2 (agente etiológico da Covid-19). Sendo assim, a droga sequer deveria ter sido encaminhada para testes clínicos. O outro estudo, realizado em Manaus, sendo o primeiro estudo randomizado utilizando mais de uma dose de cloroquina, recomendava não usar maior dosagem, pois esta se mostrou mais tóxica do que sem tratamento algum. Em outra nota, produzida e divulgada pelas Associações Médicas de Medicina Intensiva, de Infectologia e de Pneumologia, é apresentado um protocolo com distintas recomendações, onde se preconiza a não utilização da cloroquina em nenhum caso da Covid-19. Além disso, as secretarias de saúde das capitais dos Estados do Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, produziram uma nota técnica conjunta onde reforçam o risco no uso do medicamentos sem comprovação confirmada, e que ainda trazem efeitos adversos potencialmente perigosos. Por fim, dois dias após o lançamento do protocolo do MS, outra pesquisa, publicada na renomada revista Lancet, realizada com mais de 90 mil pessoas, em 671 hospitais, nos seis continentes, e com todo o rigor necessário para uma pesquisa clínica, revelou que o uso da cloroquina não só foi ineficaz, como demonstrou maior mortalidade em relação ao grupo controle (aquele que não usou esse medicamento). Os resultados desta pesquisa fizeram com que a OMS anunciasse nessa segunda, dia 25 de maio, a suspensão temporária da pesquisa em andamento em 100 países de tratamento de COVID-19 com cloroquina e hidroxicloroquina.

 Destaca-se ainda que a cloroquina já é sabidamente perigosa para quem faz utilização prolongada, para artrite reumatóide ou Lúpus, por exemplo, sendo necessários vários critérios de acompanhamento e avaliação de risco-benefício.

Sentimos e compreendemos a angústia de nossos colegas profissionais de saúde de não ter oferta terapêutica para essa doença, mas a cultura de prescrever tratamento por compaixão sem a sua devida comprovação, como no caso da cloroquina para Covid-19, não pode ser uma prática, frente aos potenciais efeitos tóxicos deste medicamento.

Mas, apesar de tudo isso, por que da insistência de Bolsonaro na utilização em larga escala da cloroquina? Por que antes de comprovação de eficácia, Bolsonaro ordenou produção em larga escala pelo exército deste medicamento? É evidente a tentativa de garantir uma (falsa) sensação de segurança para a população, a fim de que esta não cumpra as recomendações de isolamento social, haja vista a inoperância do governo federal em garantir as condições mínimas para esta recomendação, como o acesso à renda mínima para parte da população. E, desta maneira, vai induzindo ao descumprimento do isolamento social, reforçado também pela inclusão de diversos serviços que poderiam estar fechados na quarentena como sendo essenciais, e pela mobilização dos afetos dos pequenos empresários, autônomos, informais e desempregados, culpabilizando as medidas de isolamento pelos resultados da crise econômica e social da pandemia. 

Nesse cenário, mesmo com as evidências científicas apontando para a não utilização da cloroquina, continuamos assistindo a propagandas e recomendações deste “tratamento”, por parte do governo e por suas milícias digitais. Sendo assim, conclui-se que o presidente atenta de maneira voluntária e consciente contra a saúde da população, pois: indica um tratamento ineficaz e tóxico, não coordena as ações em saúde no MS, não libera o pacote de ajuda aos estados e municípios, dificulta acesso a crédito aos pequenos empresários e autônomos e apresenta todos os tipos de dificuldades e burocracia que tem atrasado os pagamentos do auxílio emergencial à população mais vulnerável e desassistida.

Seguem abaixo os links para os documentos mais recentes sobre estudos e notas relacionadas ao tratamento da Covid-19 com cloroquina.

Nota de especialistas brasileiros sobre o uso da cloroquina / hidroxicloroquina para o tratamento da COVID-19: https://www.abrasco.org.br/site/wp-content/uploads/2020/05/Nota-CQ-HCQ-20-05-2020-01h00.pdf

Estudo multicêntrico publicado na revista científica Lancet: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31180-6/fulltext?fbclid=IwAR0-E0UfJlQ1UUJPyvwnXSo_OmrF8-bpQhhoenF1eIR_zWsLK4WQ76BO8pQ

Fake news checado sobre “Kit Covid-19”: https://www.e-farsas.com/kit-covid-19-para-combater-o-novo-coronavirus-e-verdadeiro-ou-falso.html:

Nota assinada por Secretarias de Saúde de RS, SC e RJ: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2020/05/22/nota-assinada-por-rs-sc-e-rj-desestimula-uso-de-remedio-liberado-pelo-ministerio-da-saude-para-covid-19.ghtml

Parecer de Entidades médicas (Associação de Medicina Intensiva Brasileira – AMIB; Sociedade Brasileira de Infectologia – SBI; Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia): https://setorsaude.com.br/entidades-medicas-lancam-parecer-sobre-o-uso-de-cloroquina-e-hidroxicloroquina/

OMS suspende testes com hidroxicloroquina contra a Covid-19: https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/05/25/oms-suspende-testes-com-hidroxicloroquina-contra-a-covid-19.ghtml

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