NÃO É HORA DE REABRIR!

Reabertura do comércio e das atividades é uma sentença de morte para muitos

BRT lotado na noite da reabertura do comércio no Rio de Janeiro. Foto: Yan Marcelo @yanzitx

Diversos Estados e municípios têm acabado de vez com o distanciamento social, principal estratégia coletiva de enfrentamento da pandemia da Covid-19. Após meses de boicote do presidente genocida, que arruinaram em boa medida os esforços da população ao isolamento, governadores e prefeitos vem autorizando o retorno de atividades e reabertura do comércio. O pretexto usado é o de fazer a economia rodar, mas o que vai rodar e circular mesmo é o vírus. Todo o esforço até aqui do povo brasileiro, em cumprir a quarentena para “achatar a curva” e diminuir a contaminação e disseminação do vírus, pode ser rapidamente perdido, e novas ondas de ampliação de casos e mortes nos fará voltar para nossas casas em pouquíssimos dias. O tiro vai sair pela culatra e a tragédia atingirá um outro patamar.

Não se trata, porém, de defender uma eterna quarentena. Sabemos que a imunidade da população só será alcançada com o desenvolvimento de uma vacina eficaz. Muitas drogas e terapias estão sendo testadas, mas nenhuma ainda com efeitos que vislumbrem cura ou mitigação do sofrimento, o que poderia nos tranquilizar minimamente. Todo esse esforço da ciência nos aponta um horizonte infelizmente ainda distante, apesar de todas as panaceias anunciadas ou prometidas por Trump e Bolsonaro em torno de cloroquinas, desinfetantes, ou vacinas desenvolvidas e disponíveis ainda esse ano. Passaremos ainda muitos meses, quiçá anos, antes de termos os avanços que poderão diminuir o medo atual que assola a todos nós. Até lá precisaremos em algum momento e de alguma forma construir novas formas de sociabilidade, que inclua trabalho, estudos, lazer e convivência comunitária.

Por outro lado, a defesa do distanciamento social não pode ser uma afirmação idealista e classista, sem considerar a vida real das pessoas e o que significa exatamente, no dia a dia de cada um, nossa afirmação e apelo para que todos “fiquem em casa”. A pandemia já infectou diretamente quase um milhão de pessoas no Brasil e cerca de oito milhões em todo o mundo (sem considerar a enorme subnotificação), mas também provocou um choque na vida cotidiana de 210 milhões de brasileiras e brasileiros, ou seja, todo o nosso povo. Uma greve involuntária, uma prisão autoimposta, criando um momento cheio de medo e de autorreflexão compartilhada: o que vai acontecer comigo? E com meus filhos, meus pais, minha família? E os meus amigos? Teremos comida e água todo o tempo? Terei trabalho? Serei pago? Vou conseguir pagar as contas? E se eu precisar de serviços de saúde? Quem é o responsável por tudo isso? Quem ou o que poderá nos salvar? Experiências subjetivas e objetivas, simultaneamente. Assim, a estratégia de distanciamento social não significa tão somente um chamado à razão, um convencimento de cada um e de todos de que essa é a melhor medida. Se assim fosse, a quarentena seria uma questão apenas de foro pessoal, onde a adesão (ou não) a ela seria um ato individual. Essa forma de encarar o problema tem levado a muita culpabilização de quem “fura” a quarentena, mas, sobretudo, à desconsideração de que milhões não têm como exercer seu legítimo direito à quarentena.

Muitos não têm como ficar em casa, pois sequer têm casas, ou vivem amontoados em pequenos cômodos nas favelas e quebradas. Inúmeros são aqueles que só conseguem sobreviver se continuarem trabalhando, e são tantos os que precisam trabalhar nos serviços essenciais que não podem parar durante a pandemia. Mais e mais famílias estão entrando em situação de pobreza e endividamento devido à crise econômica agravada com a pandemia. Há ainda aqueles vários que têm caído em depressão ou adoecido de outras formas que não da Covid-19, pois o distanciamento causa danos emocionais, físicos e psicológicos. A população negra tem sido a que mais morre da Covid-19, porque histórica e estruturalmente suas condições de vida levam a isso. As ações dos governos para a pandemia esquecem deliberadamente os povos indígenas, os quilombos e a população do campo. E não podemos ignorar as pessoas privadas de liberdade e as asiladas, cuja condição particular os colocam totalmente sujeitos ao que o Estado e as instituições lhes impõe. Da mesma forma, a população LGBTI, em especial os transexuais e transgêneros, que raramente conseguem emprego formal e são discriminados no dia a dia, e a população em situação de rua. 

Foto: Ryoji Iwata/Unsplash

Por tudo isso o distanciamento social deve ser lidado como ação coletiva, e precisa compor-se de um pacote amplo de políticas públicas, que garantam a todos o direito de ficar em casa. Não pode ficar ao cargo de cada um decidir se pode ou quer ficar de quarentena. Contudo, é assim que na maior parte do tempo temos sido forçados a lidar com a questão do isolamento social, o que não é nenhuma novidade numa sociedade onde o individualismo, e não as questões coletivas, orienta nossas práticas e modo de pensar.

Então, a pergunta que deve orientar nossas condutas enquanto sociedade é: qual a melhor forma de enfrentar a pandemia em cada momento e fase? Sempre considerando nas respostas que o enfrentamento da pandemia deve ser visto em toda sua abrangência, desde os efeitos na saúde das populações, na capacidade do sistema de saúde, nas condições de trabalho de quem está na linha de frente do combate à Covid-19 e nos serviços essenciais, e nas condições econômicas locais e nacionais, aqui considerando a economia no seu sentido original, que é a produção e distribuição de tudo aquilo que é necessário à vida.

Porém, o que temos presenciado é que o retorno em curso a um novo ou velho normal que os governos estão propondo e coordenando, não responde bem a nenhuma dessas questões, sejam elas vistas individualmente, em suas interfaces, ou em sua totalidade.

Os governos têm apresentado planos, com fases e estágios de reabertura gradativa, ora lentas ora aceleradas, utilizando taxas de infecção e mortalidade associadas ao vírus e capacidade do sistema de saúde para atender os casos e a demanda. Alegam que as curvas desaceleraram e que o sistema de saúde está atendendo a contento os casos. Porém, tal qual o mágico que nos faz olhar para um lado, distraindo-nos enquanto tira um lenço da manga ou um coelho da cartola, a razão que tem orientado de fato a reabertura provém da pressão econômica de várias frações da burguesia, sob alegação que, após semanas de paralisação relacionadas ao coronavírus, o custo de ficar em casa tem sido muito alto para a economia.

Se dias atrás todos falavam de um SUS em vias de colapso orientando a quarentena, agora se inverte a chave, onde a economia é que estaria em vias de colapso, justificando um urgente retorno e uma necessária reabertura. Não se trata de uma falsa e enganadora disputa entre SUS e economia. Até porque, de fato ambos estão em vias de colapso. É ilusão, ou apenas fé, que o retorno mitigará o colapso econômico, embora seja certo, e baseado na ciência, que a pandemia agudizará nesse cenário. O que está em jogo aqui é o colapso da vida, e em níveis globais, o colapso da humanidade.

Não estamos realizando os testes para compreender como a doença está evoluindo na população. Todos os dados têm mostrado que a prevalência da Covid-19, ou seja, a quantidade de pessoas que já “pegou” o vírus, ainda é baixa demais em nossa gente. E a letalidade em algumas regiões, cidades ou bairros está altíssima, relacionada em parte ao número de testes realizados, mas também à dificuldade crônica de acesso aos serviços de saúde, e da insuficiente capacidade do sistema de cuidar dos casos mais graves.

Foto: Luiz Costa-SMCS/Curitiba

Assim, à afirmação de alguns dos planos governamentais para reabertura da economia de que há desaceleração de casos e óbitos, deve ser contraposto o fato concreto de que o vírus não sumiu de repente, mas apenas foi controlada sua disseminação, exatamente pelas ações de distanciamento social, mesmo com todo o boicote de Bolsonaro e os seus seguidores. Um retorno açodado nesse momento resultará em um rápido e novo aumento de casos e óbitos

Sem testes, sem rastreio e isolamento dos sintomáticos e contatos, qualquer plano para “abrir” a economia será exatamente isso. Apenas um plano. Cujos resultados podem ser não uma ampliação da atividade econômica, mas uma ampliação do genocídio já em curso no país, onde nessa semana estamos nos aproximando dos 50 mil brasileiras e brasileiros mortos pela doença, além do aumento de mais de 14 mil mortes por outras síndromes respiratórias em relação a anos anteriores (provavelmente também Covid-19, não testadas ou confirmadas), e também o aumento substancial de mortes em domicílios, devido a miseravelmente não terem conseguido acessar os serviços de saúde abarrotados. No dia 10 de junho o Brasil se tornou o primeiro país do mundo na média diária de mortes pelo coronavírus, e o governo americano anunciou que, segundo modelo estatístico por eles usado, nos tornaremos a nação com mais mortos em todo o planeta em finais de julho, se nada for feito para melhorar o controle da pandemia.

Sim, um dia teremos que retomar algum grau de normalidade nas nossas vidas. Porém, ainda não é a hora. Estamos errando no “timing”. Os países europeus e asiáticos e as regiões dos Estados Unidos que têm retornado nas últimas semanas tiveram uma história de enfrentamento da doença de até três meses antes do Brasil. Não há lógica em quem defende um retorno aqui simultâneo ao que ocorre lá, se não a lógica da necropolítica.

Qualquer plano de retorno exigirá avaliar primeiro qual o melhor momento (quando?), e para sua implementação, demandará recursos, comprometimento e inteligência significativos (como?). Porém, em vias inversas a isso, o governo federal, agora seguido da maioria dos estados e municípios, não mostra nada além de ignorância e uma terrível desconexão com o povo brasileiro. A afirmação recorrente das dores causadas pelo fechamento da economia, não supera em absolutamente nada ao potencial de perda massiva de vidas se retomarmos atividades sem uma vacina ou testes generalizados.

André Dahmer @malvados

Mas podemos fazer um exercício, pensando nos mesmos parâmetros deles: com a abertura prematura da economia, mais pessoas ficarão doentes e mais pessoas morrerão. Além da tragédia humanitária, isso implicaria tão somente que iríamos recuar, e não avançar economicamente, pois em breve, muito breve, precisaríamos fechar o país mais uma vez, e trabalhar dobrado para nos manter isolados e retomar o controle do vírus. Simultaneamente perderíamos um tempo valioso para derrotar este vírus, e a economia sofreria ainda mais.

Além do mais, numa economia dependente como a brasileira, o desaquecimento global da economia impede que qualquer ação atomizada do governo brasileiro tenha êxito. Alguns países e regiões já têm inclusive se mostrado avessos a manter relações normais com o Brasil diante do caos pandêmico tupiniquim, expresso em primeira medida nos voos barrados para EUA e Europa enquanto a pandemia não for controlada. E se a aposta fosse no mercado interno, a única forma de recuperar a economia seria constituir políticas de proteção imediata do emprego e da renda, com transferências maciças de recursos para os informais, para os pequenos negócios, e para manutenção dos salários e empregos dos trabalhadores formais, tudo o que Guedes se opõe frontalmente. O posto Ipiranga e sua turma demonstram assim que em economia não são mais do que terraplanistas, realizando experimentos econômicos bizarros a custa da vida de todo um povo.

Então, quando deverá ser o retorno?

Primeiro, é ter clareza que a dinâmica da doença é diferente de região para região, Estado para Estado, município para município, bairro para bairro. Não há como pensar um retorno sem olhar como está a evolução dos casos e a capacidade do sistema de saúde de acordo com as especificidades territoriais. Com isso, as estratégias adequadas tendem a ser muito diferentes, às vezes até internamente em um mesmo município. Em boa parte do país em vez de pensar em retorno deveria estar sendo planejada a implantação da quarentena total (ou lockdown). Em outras partes, a manutenção da quarentena. E pode até ser possível que em alguns lugares já se tenha condições de planejar o retorno, mas que só pode ocorrer em condições estreitamente controladas.

Ainda no âmbito da variável territorial, outra condição necessária é planejar o retorno considerando o adensamento populacional e a interiorização atual da pandemia. O risco aumenta exponencialmente em áreas densamente povoadas, sobretudo nas favelas e quebradas, em função das condições precárias de moradia e saneamento. Já os pequenos municípios e os interiores sofrem desde sempre da pequena capacidade instalada de serviços de saúde, e da precária regionalização dos serviços. Para os povos das florestas e a população do campo devem ser implementadas estratégias protetivas específicas.

Ainda que qualquer plano de retorno tenha que ser desenvolvido e implementado de maneira o mais próximo possível às condições locais, isso não deveria ficar na responsabilidade exclusiva dos municípios e/ou Estados. Deveríamos ter diretrizes claras, apoio técnico e financeiro, com estreita coordenação das ações, expressos em uma política nacional de combate à Covid-19, não imposta de cima para baixo, mas discutida e pactuada. Mas não temos nada disso. O Brasil não tem uma política central e condutora, responsabilidade óbvia e constitucional do Ministério da Saúde – não temos sequer ministro –, o que tem gerado chacota e lamentos internacionais, além de um retardo e desorganização para o enfrentamento da pandemia, expressos nos dados que apontam, como tendência, nosso caminho para talvez nos tornarmos o país com mais casos e óbitos. Essa omissão criminosa e falta de coordenação dificulta qualquer estratégia séria de flexibilização, já que na medida em que há comunicação entre as regiões, a circulação de pessoas entre áreas com estágios epidemiológicos distintos levará à circulação do vírus das áreas mais afetadas para aquelas que já apontavam para um melhor controle da doença.

Pronunciamento de Fernanda Melchionna, líder do PSOL na Câmara, em 04 de junho

No que se refere ao controle da epidemia, o afrouxamento da quarentena só pode vir acompanhado de outras estratégias inteligentes e consagradas no controle e vigilância de doenças. Massificação de testes, rastreamento e isolamento de contatos devem ser as medidas centrais para proteger a população em geral de adoecer e diminuir a propagação do vírus. Sem uma imagem clara de como a doença está evoluindo, será impossível saber se as diretrizes de segurança, previstas nos planos de reabertura, estão sendo adequadas, ou se precisarão ser revistas, ou mesmo se novas estratégias de distanciamento social deverão ser retomadas.

E há muito também o que fazer em termos de educação em saúde. Fala-se tanto em novo normal, mas o que isso significa, na prática, ninguém sabe. Desde como usar corretamente máscaras, à revisão de fluxos, processos e até intervenções estruturais nos estabelecimentos comerciais, nos restaurantes, nas escolas e universidades, nas indústrias. Nas casas, as pessoas estão loucamente fazendo descontaminação de tudo e qualquer coisa, mas, ao mesmo tempo, estão tendo contato ampliado e permanente com um conjunto de substâncias tóxicas.

Alguém já disse, e não custa repetir: retomar as atividades agora segue o mesmo raciocínio daquele cara que pensa que é médico (mas talvez seja só um general), e interrompe o antibiótico antes que a dose esteja completa, apenas porque se sente melhor. Dias depois a bactéria ressurge, mais forte e resistente ao antibiótico.

E outro alguém já disse, e também não custa repetir: retomar as atividades agora segue o mesmo raciocínio daquele paraquedista do exército (parece que era capitão): “bem, já que o paraquedas diminuiu minha descida até agora, será bom tirá-lo enquanto eu ainda estiver no ar”.

E todo mundo alguma vez já disse, mas não custa repetir, repetir, repetir e repetir: retomar as atividades agora seria simplesmente burrice, irresponsabilidade, crime, genocídio.

Foto: redes sociais
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